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Problemas e Questões:

A costa do Nordeste do Brasil originalmente era habitada pelos índios Tupi. Esta região manteve-se praticamente inacessível por terra durante mais de quatro séculos. O seu isolamento permitiu às comunidades pesqueiras que ali vivem manterem uma total independência em relação aos grandes centros urbanos. Os pescadores, tendo apenas acesso aos seus próprios meios, criaram uma cultura única, preservando uma colecção importante de barcos de pesca e equipamento que não se encontra em mais nenhum lugar do mundo. Localizado numa das mais espectaculares e imperturbadas linhas costeiras do mundo, estas águas do mar, baias e estuários têm alimentado famílias de pescadores durante incontáveis gerações.


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Em 1988 a Endangered fez a sua primeira viagem à região. Lá, em pequenos bascos de pesca, o director do projecto, Paul Lima, viu os descendentes dos escravos trazidos de Africa em 1500'. Nesta zona existe a forma mais pura de Umbanda (magia branca) e Quinbanda (magia negra). Mais ao norte nas comunidades de descendência Europeia e Amerindia, o Sr. Lima viu aldeões com cabelo loiro e olhos azuis, um legado dos Holandeses do sec. 17 e dos Franceses. Embora a Engangered tenha presenciado alguns sintomas de mudança já nessa altura, nunca poderia ter imaginado ou previsto a velocidade com a qual essa mudança iria escalar.

Com a ajuda de uma economia Brasileira forte, os economistas prevêem que o turismo no Brasil ultrapasse em breve a agricultura como a industria que lidera no Nordeste. Agora o crescimento turístico já se encontra a um nível de crescimento 160% mais rápido do que o da média do mundo. Acreditando que o emprego proveniente do turismo pode libertar a região da pobreza, o banco Inter-Americano para o Desenvolvimento é o principal financiador de um empréstimo para um projecto de 800 milhões de dólares para explorar o turismo e promover o desenvolvimento na região. Porquê a costa do Nordeste? "As Caraíbas estão saturadas", diz Cello Sterenburf, o secretário de turismo do estado de Pernambuco, "O próximo grande desenvolvimento turístico vai ser no Nordeste do Brasil". "1



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A Endangered perguntou à Conservation International, uma organização ambiental com base em Wahsihngton DC, para averiguar os estragos provocados pelo desenvolvimento turístico nas comunidades pesqueiras da região. "Estou muito preocupado", disse Paulo Prado, o seu coordenador brasileiro, "À vinte anos muitas destas comunidades artesanais ocupavam os 4000 km de linha costeira, hoje só restam uma mão cheia delas." Algumas alojam os jangadeiros, pescadores que navegam num embarcação artesanal - numa jangada.

O legado histórico da jangada tem a sua origem nos Gregos e Romanos antigos (era o barco de Ulisses na "Odisseia"). Os Índios Brasileiros chamavam a jangada, CUTINGA, o que significa língua branca, e usavam-na para pescar muito antes da chegada do navegador português Cabral 2. Os jangadeiros (pescadores que pescam com jangadas) ajudam a manter os últimos sinais da pesca de pequena escala no Nordeste. A sua coragem e bravura inspiraram Orson Wells na sua curta metragem Quatro Homens Numa Jangada 3.

A realidade nas pequenas comunidades pesqueiras é uma realidade de desespero. Se não se implementar em breve alguma mudança, é provável que pelo fim da década, as únicas jangadas a navegar nas águas do Nordeste sejam as que transportam turistas.


Seria demasiado fácil criticar o governo por tentar desenvolver esta costa frágil. Por outro lado, os benefícios são grandes, quando milhões são aplicados numa região com grande necessidade de assistência económica. Mas, será que os pescadores vão ganhar com isto? Uma resposta parcial pode ser encontrada num estudo socio-cultural recente que foi espelhado numa conversa que o Sr. Lima teve com um pescador do Nordeste, Frederico Alves 4. Ele contou a história dos efeitos da pesca em grande escala na sua aldeia.


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Quando uma auto-estrada costeira foi construída, uma comunidade pesqueira até então isolada, tornou-se um atractivo para os grandes industriais pesqueiros, para os proprietários de terras, para os turistas e para os políticos. Juntos, eles aumentaram muito a procura dos produtos do mar. O estudo indica que os pescadores rurais, como o Sr. Alves, com os seus barcos e equipamento rústicos, não foram capazes de dar resposta às novas necessidades. Por isso, eles não tiveram outra alternativa senão abandonar os suas embarcações tradicionais e passar a trabalhar para os donos ricos dos barcos modernos que acalmaram os seus medos de perda de autonomia com promessas de melhoria económica e mobilidade social. Na realidade, os pescadores, pobres e sem formação, têm poucas hipóteses de sucesso. Antes eles eram orgulhosos e independentes, muitos hoje sentem-se ressentidos e explorados.

Enquanto o poder da fotografia tem ajudado a Floresta da Amazónia a receber a atenção que ela merece, locais como a costa Nordeste do Brasil são muitas vezes ignorados. Lewis W. Hine, um pioneiro em documentário social escreveu:


Eu queria mostrar coisas que tinham de ser corrigidas, eu queria mostrar coisas que tinham de ser apreciadas

Nesse espírito, o Sr. Lima está determinado a chamar a atenção do público para a cultura evanescente dos pescadores do Nordeste e do seu meio ambiente ameaçado que contém uma grande variedade de ecossistemas



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Os seus pântanos, praias e recifes, de acordo com um relatório das Nações Unidas, estão ameaçados pelo desenvolvimento, excesso de pesca e lixeiras contendo poluentes toxicos 5. A sua Floresta Atlântica, de acordo com o World Wildlife Fund, é um dos dois ecossistemas tropicais em maior perigo no mundo, o outro é Madagascar. Só 2% dos seus originais 700 mil hectares sobrevive hoje. Algumas fontes Brasileiras, tais como a Fundação SOS Mata Atlântica, acreditam que a menos que chegue ajuda em breve, mesmo o que resta vai desaparecer, juntamente com 300 espécies de vida selvagem.



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Poderá perguntar-se onde está o protesto vindo do Brasil? Infelizmente, os movimentos ambientais do Brasil estão vinte anos atrasados em relação aos da Europa, do Japão e dos Estados Unidos. Mesmo nos poucos parques nacionais e reservas que existem, embora a situação esteja a melhorar, o financiamento é muite menor do que o necessário. Com o conhecimento de um mundo que tem cada vez menos florestas e culturas tradicionais, é difícil não nos envolvermos quando consideramos que no fim da nossa década, fotografias como as que estão aqui expostas, poderão já não ser possíveis.

 

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