Artigo
Aqua Georgrahia Vol: 14, 1997. Fotografias e Texto de Paul Lima.
A costa do Nordeste do Brasil, estendendo-se por 3000 km deste a ponta do sul da Baía até à extremidade do norte do Ceará, é uma das coisas mais espectaculares do mundo e o seu isolamento virtual das influências do mundo exterior deu origem a uma cultura pesqueira única. A região era originalmente ocupada pelos índios Tupi. Hoje a ária é povoada pelos descendentes dos índios Tupi, juntamente com descendentes dos Europeus e dos 3.3 milhões de escravos trazidos de Africa no século XV.
Há vinte anos, existiam ainda centenas de pequenas comunidades pesqueiras que alojavam os lendários homens das jangadas conhecidos por jangadeiros. Hoje só resta uma mão cheia dessas comunidades — as outras sucumbiram ao turismo e a outros aspectos considerados lucrativos. A região está a tentar tornar-se o equivalente Sul Americano da Costa Brava, e não tarda muito para que fotografias como as apresentadas aqui, o trabalho do fotografo americano Paul Lima, sejam tudo o que resta desta cultura antiga.
Os jangadeiros são relíquias vivas dos dias passados. Eles ainda se fazem ai mar nas suas jangadas, embarcações primitivas com uma só vela de algodão, símbolos de um povo cuja coragem é lendária — e é o desaparecimento destas embarcações que dá origem a paixões nos corações dos Brasileiros. Os índios chamam a estas embarcações "cutinga", o que significa, "língua branca", e já as usavam muito antes da chegada dos primeiros europeus em 1500, liderados pelo navegador Pedro Álvares Cabral (1467-1526). Hoje, os jangadeiros que sobrevivem, ainda mantêm muitas das suas tradições, mesmo depois da introdução de materiais modernos como nylon e plástico.
O encanto deste tipo de embarcação simples, navegando ao vento de um mar tropical ou repousando numa praia soalheira delineada por palmeiras de coco, tem sido imortalizado durante séculos em forma de poesia e canção. Embarcações semelhantes eram usadas pelos Gregos antigos e pelos Romanos, e para fins militares, por tribos Germânicas e Gaulesas. A jangada é para o Nordeste do Brasil o que o Rabelo é para o rio D'Ouro no norte de Portugal e o Sampan na China e na Malásia.
Um dia na vida de um jangadeiro começa de manhã muito cedo quando todas as embarcações se lançam ao mar. Mais tarde, as embarcações voltam, uma a uma, com a sua pesca, antes do meio dia. Durante estas viagens curtas as embarcações por vezes separam-se, cada uma pescando numa área separada; às vezes porém, dependendo da altura do ano, a frota pode manter-se no mar até cinco dias, mantendo-se as embarcações perto umas das outras e voltando juntas. A tripulação em cada barco consiste em 2-5 jangadeiros que não usam nem sextante nem compasso mesmo quando navegam para longe de terra. Em vez disso, eles confiam no conhecimento íntimo dos ventos e das marés e usam-nos de forma a voltarem ao seu pequeno pedaço de praia — o que não é um feito fácil, visto que as jangadas são tão perigosas como parecem. Lançar uma jangada em mar bravo requer força e habilidade. A embarcação é empurrada para a água em cima de dois troncos e enquanto a tripulação embarca um segundo grupo de homens espera que a vela se encha antes de lhe dar o empurrão final. Não são raras as vezes em que os jangadeiros são empurrados de novo para a praia nestas manobras.
Com, apenas meio metro de largura, as ondas passam continuamente sobre o convés, mesmo quando o mar está calmo. A tripulação tem de dormir enrolada num convés de madeira que tem só dois metros de comprimento — o único espaço coberto é o espaço reservado para os peixes e para as suas rações. Surpreendentemente, eles não sofrem choques térmicos, embora muito próximo do Equador — ao ar livro no Atlântico chega a estar muito frio. A vela de algodão tem de ser mantida molhada regularmente para conseguir resistir ao vento.
Dependendo da altura do ano, eles podem usar ou anzóis e linhas ou redes. Eles apanham peixe variado desde — cavala, raia, tubarão e enguia. Uma vez for a da vista de terra eles têm apenas as suas linhas de ferro que testam a profundidade e o sexto sentido do pescados para os ajudar a localizar os locais bons para a pesca. Quando voltam para casa, as mulheres, as crianças e os velhos juntam-se à volta dos barcos e festejam se a pesca for boa.
Histórias dos jangadeiros e da sua coragem têm passado de geração em geração nas comunidades pesqueiras rurais, e têm sido celebradas em livros como "Tita" de Jorge Amado em que um herói Jangadeiro luta contra aqueles que querem destruís a aldeia pesqueira. Mas o optimismo do livro está muito longe da realidade: os métodos tradicionais não conseguem dar conta da procura de peixe que aumenta nem competir com o equipamento moderno, e é provável que no fim da próxima década os únicos jangadeiros a fazerem-se ao mar sejam aqueles que oferecem passeios turísticos.
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